Faz tempo que não escrevo, é difícil ter inspiração quando a vida fica mais agitada. Mas é só dar uma olhada em fotos para que as coisas vem a tona. Eu estava olhando as fotinhas da Miwa, quando ainda estava no hospital e até senti saudades daquele ambiente, das enfermeiras que acompanharam toda a evolução até o dia da alta. Nestes quase 50 dias de indas e vindas no hospital, eu tive a oportunidade de conhecer várias pessoas (mães, bebês, profissionais da saúde, colaboradores e funcionários), e junto com elas, algumas histórias. Ouvi muitas, algumas dignas de uma novela mexicana, com direito a aventuras amorosas e "barracos" familiares... Algumas delas, muito tristes, que em poucas palavras, contava uma longa história de se quebrantar corações.
Esta história é de um bebê, um frágil e lindo bebê... Menina... Ainda sem nome, uma lacuna na plaquinha de papel que fornecia algumas informações básicas sobre seu nascimento. Peso, data de nascimento, nome dos pais e sexo. Na sala onde eu estava, além da Miwa e da Eishila (uma bebezinha linda, pequenina, de apenas 1300g), estava esta bebezinha de um pouco mais de 1500g. Sara (como irei chama-la), estava assim como a Miwa, na cama aquecida, toda enrolada nos lençóis esterelizados da maternidade. Fazia três semanas que Sara havia nascido e eu não tinha conhecido a sua mamãe. É sempre muito bacana conhecer novas mamães, pois é uma nova amizade, como a mamãe da Rafaela, a Kátia, no qual pude compartilhar muitas coisas boas, uma torcendo pra outra e apoiando sempre. A mamãezinha da Eyshila a conheci quando, ao entrar na sala, estava carinhosamente a colocando junto ao seu colo, como uma mamãe canguru, seu bebezinho todo envolto em seu avental sterelizado. Mas e a mamãezinha da Sara?
Dificilmente eu deixava de encontrar com uma das mamães das "vizinhas" da Miwa, será que os horários não coincidiam? Será que sua mãezinha ainda estava internada no hospital?
No seu berço, havia um pacote de fraldas e nenhuma bolsa com os pertences dela, o qute normalmente tem junto ao bebê.
Semanas se passaram e então chegou o dia em que Miwa e eu seríamos transferidas para o alojamento conjunto e passarmos o dia todo juntas. Eu estava arrumando a bolsa da Elisa e nisso, as enfermeiras corriam para confortar a Sara, choramingando de cólicas... Sara é um bebê ativo, olhinhos abertos e espertos mesmo sendo tão pequena. As enfermeras viviam trocando seus lençóis pois Sara sofria de refluxo e sempre regurgitava o leite que ela tomava pela sonda. Neste dia estava um pouco frio, e ouvi a enfermeira falar que Sara não tinha roupinhas. Então peguei um dos macacões da Miwa e dei pra enfermeira vestir Sara. Fiquei feliz em vê-la pela primeira vez vestida (sem aqueles panos do hospital). Parecia mais aquecida...
Então a enfermeira me perguntou se eu estava emprestando ou doando a roupa pra Sara. Eu disse que poderia ficar sem problemas. Então a enfermeira agradeceu e disse que iria avisar outras enfermeiras sobre a roupa. Fiquei aliviada em saber que Sara não terá problemas em perder sua roupa.
A enfermeira então começou a conversar com Sara:
_ Pronto! Agora está linda e vestida!
_ Como ninguém apareceu pra trazer roupas pra vc, a tia deu uma pra você! Obrigado, tia! (se referindo a mim).
A enfermeira então falou que a mãe da Sara está doente e que o pai apareceu um dia pra trazer fraldas. Pensei, será depressão pós parto ou algo assim? Senti pela mãe, senti o quanto deve estar se sentindo em estar longe da sua filhinha tanto tempo. Ficar longe dos filhos é a maior angústia que uma mãe pode sentir, ainda mais no hospital.
_ A mãezinha da Sara está muito doente. Ela é soro-positivo.
Isso me calou.
Sara não está lutando por sua vida em vão. Somente Deus sabe o quanto Sara é tão preciosa. Somente Deus sabe do propósito e das obras grandiosas que está reservado pra Sara. Eu senti isso naquela sala, parecia que Deus falava estas palavra pra mim.
E eu creio sim nisso e não quero acreditar em outra coisa senão nisso que Deus me disse enquanto eu olhava pra Sara, dormindo tranquilamente.
Aquela tarde foi a ultima vez que vi Sara... Será que um dia, no futuro, irei reencontrá-la? Eu creio que sim. Eu quero...